O Conselho Deliberativo do Vasco foi formalmente convocado para se reunir em sessão extraordinária no dia 6 de outubro. Em pauta estarão dois pontos decisivos para o futuro do clube: a proposta de reforma do Estatuto Social e a deliberação sobre os termos da operação com a Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa do empresário Marcos Lamacchia que venceu, na sexta-feira (25), a concorrência pela compra de 90% da nova Sociedade Anônima do Futebol (SAF) vascaína. A operação prevê que a Almirante passe a deter uma participação societária correspondente a 90% do capital social total e votante da Nova SAF — e, para que a transação avance, é necessária a adequação das normativas internas do clube.
A mudança estatutária tem um objetivo específico: compatibilizar o texto atual com a nova estrutura da operação — reduzindo o piso de participação da associação para 10% — e com a legislação vigente. Ou seja, o clube precisa ajustar suas próprias regras internas para que a venda possa se concretizar nos moldes negociados, em que os 10% restantes ficarão com a associação civil Club de Regatas Vasco da Gama, na forma de ações classe A.
Votação eletrônica com supervisão e parecer prévio
A sessão terá formato moderno: a votação eletrônica e a sala virtual serão estruturadas sob a supervisão da Vice-Presidência de Tecnologia e Inovação, para garantir segurança e exclusividade aos conselheiros. Antes do pleito, os membros do Conselho receberão um parecer sobre a operação — o documento deverá ser disponibilizado a todos antes da votação, como subsídio para a deliberação.
O caminho institucional, porém, ainda tem mais etapas. A proposta será analisada pelo Conselho Deliberativo e, caso aprovada, encaminhada para a Assembleia Geral — instância que reúne os associados e que terá a palavra final sobre a venda. O processo acontece dentro do plano de recuperação judicial do Vasco, por meio de uma unidade produtiva isolada que separa os ativos do futebol do restante do clube, e segue sob apuração da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), que analisa a operação com rigor — inclusive o fato de Marcos Lamacchia ser enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, o que motivou questionamentos por conflito de interesse.
Pelo edital da concorrência, a Almirante se comprometeu com R$ 500 milhões em aportes exclusivos no futebol entre 2026 e 2030 — R$ 100 milhões por ano, corrigidos pelo INPC —, além de R$ 120 milhões no centro de treinamento profissional ao longo de dez anos e R$ 30 milhões na base em dois anos. Para habilitar-se à disputa, da qual foi a única concorrente, a empresa depositou R$ 27 milhões em juízo e apresentou garantia bancária de R$ 324 milhões. As ações adquiridas não poderão ser vendidas por dez anos, período em que a Nova SAF não poderá distribuir dividendos.
Contrato liberado aos conselheiros e o rito das votações
Antes da sessão, os conselheiros já começaram a receber o material da operação. O Vasco informou neste sábado (26) que os membros do Conselho Deliberativo receberam acesso ao Memorando de Entendimentos (MoU) referente à operação envolvendo a Vasco da Gama SAF, dentro do chamado Projeto Caravela — o documento foi disponibilizado em um ambiente virtual para consulta. O Conselho Deliberativo do clube é formado por 167 membros e atualmente é presidido por João Riche, e o próximo passo será justamente a análise da proposta e do contrato apresentado pela Almirante.
O rito de aprovação prevê margem para o debate: caso a proposta não seja aprovada na primeira votação, o processo oferece outras duas oportunidades para que os conselheiros voltem a analisar a operação. Diferentemente do Conselho Deliberativo, a Assembleia Geral terá apenas uma votação, cujo resultado será definitivo dentro do processo interno do clube. A transferência efetiva do controle da SAF para a Almirante, por sua vez, ainda não tem data definida — antes disso, será necessário concluir os procedimentos judiciais relacionados à arrematação e aos ativos, além de cumprir todas as etapas de aprovação dentro do Vasco. Do lado do comprador, Mário Junqueira, sócio da Almirante, afirmou que o grupo aguarda a definição do Conselho para avançar na preparação da nova administração da SAF.
Na prática, a sessão de 6 de outubro transforma em decisão colegiada o que até agora era um desfecho anunciado: com a vitória na concorrência assegurada e o contrato já nas mãos dos conselheiros, a Almirante depende agora da aprovação dos 167 membros do Conselho — e, depois, dos associados em assembleia — para assumir oficialmente o controle do futebol vascaíno. A reforma estatutária, que reduz o piso de participação da associação a 10%, é a peça que destrava o negócio; sem ela, a operação não encontra amparo nas regras internas do clube. Nos próximos dias, o parecer a ser distribuído aos conselheiros dará o tom do debate — e a votação mostrará se a venda segue rumo à assembleia sem resistências ou se enfrentará questionamentos no caminho.



