Na noite desta sexta-feira, a SAFiel, projeto que visa transformar o Corinthians em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), enviou ao clube um documento com 56 páginas de respostas sobre as principais dúvidas da iniciativa. O prazo acordado entre as partes se encerrava justamente neste dia 4. Segundo apuração do Meu Timão, o material encaminhado à alta cúpula alvinegra corresponde a 108 questionamentos formalizados pelo clube, incluindo perguntas formuladas pela diretoria e pelas presidências do Conselho Deliberativo (CD), do Conselho de Orientação (Cori) e do Conselho Fiscal (CF). Além disso, a SAFiel recebeu perguntas dos coletivos Voz Corinthiana e Família Corinthiana — por terem sido feitas fora do prazo nos próximos dias.
O envio do documento é mais um capítulo de uma negociação que ganhou ritmo nas últimas semanas. A diretoria alvinegra e a SAFiel se reuniram oficialmente pela primeira vez no fim de agosto, no Parque São Jorge, em encontro que durou pouco mais de uma hora. Antes disso, o Corinthians havia formalizado um documento, assinado por Osmar Stabile, presidente do clube, Miguel Marques, presidente do Cori, e Romeu Tuma Júnior, mandatário do CD, com algumas ressalvas. As dúvidas também se incorporaram aos 105 questionamentos feitos por Armando Mendonça, vice-presidente da diretoria. As relações entre as partes, porém, tiveram uma escalada após uma exigência de Stabile: o presidente afirmou que, se a SAFiel apresentasse os recursos para a quitação da Neo Química Arena, ele assinaria um papel vinculante, que daria andamento à negociação. Na segunda-feira (31), a SAFiel enviou uma carta ao presidente aceitando a proposta, que inclui a quitação do estádio, além do pedido de uma reunião urgente.
O modelo de controle pulverizado e a inspiração no exterior
A proposta apresentada pela SAFiel a Osmar Stabile no dia 2 de junho prevê a captação de R$ 2,5 bilhões, podendo chegar a R$ 3 bilhões. Os valores seriam destinados, principalmente, para quitar as dívidas do futebol, realizar investimentos esportivos, melhorar a infraestrutura, implementar mecanismos de governança e fortalecer o clube social. Um dos principais pontos é a influência direta do torcedor na política do clube, com investimentos a partir de R$ 250 e limites de participação por CPF. Investidores externos poderiam participar por meio de ações sem direito a voto, em caso de necessidade de complementar o montante previsto. Outro ponto importante é a garantia de preservação da identidade do Timão: caso assuma o controle, a SAFiel não tem permissão de alterar elementos como nome, símbolos, cores e o próprio escudo.

A engenharia do projeto aposta em uma organização financeira de controle pulverizado, em vez de entregar o patrimônio centenário a um único magnata. “O Corinthians está diante de um ultimato financeiro e institucional. A SAF do Corinthians não teria um controlador principal, então o modelo de distribuição de ações é pulverizado”, afirma Carlos Teixeira, um dos idealizadores do projeto. A gestão ficaria a cargo de diretores profissionais e independentes, submetidos a conselhos de administração e blindados das tradicionais disputas políticas do clube social. “A intenção é entregar o futebol do clube para seu verdadeiro dono: o torcedor. Ação você compra e é titular de um título de propriedade, com um pedacinho do Corinthians”, diz Eduardo Perez Salusse, advogado, um dos idealizadores e um dos principais porta-vozes do projeto. Ao contrário de doações passivas, a compra de ações garantiria aos apoiadores assento em instâncias deliberativas, como o Comitê de Valorização do Torcedor e conselhos.
O modelo brasileiro, caso avance, buscará respaldo em precedentes internacionais de gestão comunitária — na esteira de iniciativas no exterior, a ideia é vender ações aos simpatizantes, colocando a torcida no poder. A proposta surge em um momento de urgência: o Corinthians, clube mais endividado do Brasil, enfrenta uma crise financeira de quase R$ 3 bilhões em endividamento, consumindo centenas de milhões ao ano apenas no pagamento de juros. Diante do colapso do modelo associativo tradicional, o projeto da SAFiel emergiu no Parque São Jorge para separar a gestão do futebol profissional da estrutura social do clube, permitindo a abertura de capital para a compra de ações por investidores institucionais — e, especialmente, pela própria torcida.
Os desafios do caminho
A SAFiel já revelou um cronograma que detalha os prazos para que as ações previstas sejam realizadas, de forma gradual, com conclusão após um ano da aceitação: instalação do sistema virtual para início das diligências em 30 dias; conclusão da due diligence e do valuation do clube, a ser realizado por uma empresa Big Four, em 180 dias; registro dos fundos e ofertas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) entre 180 e 210 dias; roadshow e período de reservas em 210 dias; anúncio dos conselheiros independentes e do CEO em 210 dias; e aprovação da SAFiel em Assembleia Geral dos associados em 300 dias.
O caminho, porém, não é simples. A urgência alvinegra reflete uma transformação mais ampla no esporte nacional, impulsionada pela aprovação da Lei da Sociedade Anônima do Futebol, em 2021 — mas a migração para o formato empresarial está longe de ser um remédio milagroso. “A SAF não é uma varinha mágica que você encosta no clube e ele se transforma numa potência. É preciso fazer muita coisa antes, durante e depois para que dê certo”, alerta José Francisco Manssur, advogado e um dos coautores da Lei da SAF. Sem auditoria profunda e sem o cumprimento de rígidas métricas contratuais de governança, corporações esportivas acumulam prejuízos com a mesma velocidade das velhas cartolagens amadoras.
A experiência recente do próprio Corinthians ilustra o desafio. A vaquinha da Arena, fruto de um acordo entre a torcida organizada Gaviões da Fiel, o clube e a Caixa Econômica Federal, estipulou a meta de levantar R$ 720 milhões via Pix para quitar o financiamento do estádio. Embora tenha arrecadado mais de R$ 40 milhões em doações populares, o projeto ficou muito distante da meta — o episódio escancarou os limites das doações pontuais sem contrapartida corporativa. A lição central sobre as finanças dos clubes permanece inalterada: nenhuma engenharia acionária substitui a disciplina orçamentária, a transparência e o compliance rigoroso. Nem mesmo o amor da torcida é capaz de mudar essa realidade.



