Para quem me conhece, sabe bem os trocadilhos que costumo fazer em meus textos e aqui não é diferente, é aquela coisa, de longe parece feio e de perto é feio mesmo, aqui é caso curioso de como uma associação foi capaz de destruir uma história de anos, o titulo da série C apenas fez o trabalho de tampar o que estava ruim, ruim mesmo.
A Ponte Preta tem 126 anos de história, o segundo clube mais antigo do Brasil em atividade e uma torcida estimada em mais de 400 mil pessoas na Região Sudeste. Esses ativos intangíveis existem. Mas um investidor que toma decisão com base apenas no nome vai encontrar uma conta que não fecha.
Numa semana de junho de 2026, dois eventos ocorreram simultaneamente: a ANRESF excluiu a Macaca do PARF-B, tornando-a o primeiro clube punido pelo fair play financeiro da CBF, e o Conselho Deliberativo aprovou a continuidade do processo SAF por 108 votos a 20. A ordem importa. A punição veio antes da aprovação.
O passivo real
Em petição ao Tribunal de Justiça de São Paulo, a própria Ponte Preta declarou dívida de R$ 340 milhões, valor superior ao patrimônio total do clube, com orçamento previsto para 2025 de R$ 55 milhões. Outras estimativas são ainda maiores: a diretoria reconhece que a dívida total gira entre R$ 350 milhões e R$ 400 milhões. Desse total, cerca de R$ 190 milhões já estão em fase de execução, gerando bloqueios de verbas e a penhora do Estádio Moisés Lucarelli.
Isso significa que o principal ativo físico do clube já responde por dívidas de terceiros. Qualquer estruturação de SAF precisa enfrentar esse fato antes de qualquer conversa sobre valuation.
O que a infraestrutura vale, de fato
O Moisés Lucarelli tem 36.000 m² de área, capacidade atual para 19.728 torcedores e é tombado pelo patrimônio cultural de Campinas desde 2011. O tombamento protege a identidade histórica, mas também limita intervenções, o que reduz a flexibilidade operacional de qualquer investidor.
A Quadra Capital apresentou projeto de modernização com investimento estimado em R$ 400 milhões, que ainda depende de aprovações internas e dos órgãos públicos competentes. Com a reforma, a capacidade chegaria a 21 mil torcedores e até 38 mil pessoas para eventos, com 800 vagas de estacionamento.
A lógica do projeto é correta: arena multiuso, receita não-matchday, valorização do entorno. O problema é que o estádio está penhorado. Não existe projeto de R$ 400 milhões viável sobre um ativo com restrição judicial. A sequência lógica exige primeiro limpar o passivo, depois capitalizar o ativo. A Ponte Preta está tentando fazer ao contrário.
A receita que sustenta o negócio
A receita anual estimada para 2025 ficou entre R$ 25 e R$ 30 milhões, com despesas de R$ 50 milhões, o que gera déficit estrutural no ano. Em marketing, patrocínios e permutas, o clube fechou 2024 com R$ 12 milhões, número que caiu 33% na Série C, para cerca de R$ 8 milhões.
A Série B recupera visibilidade e, consequentemente, capacidade de geração de receita comercial. Mas o operacional segue deficitário. Nos primeiros jogos da Série B em casa, o clube acumulou déficit médio de R$ 16.939 por partida, com receita de bilheteria de R$ 546.380 para 20.378 torcedores pagantes em seis jogos. O modelo atual perde dinheiro em cada jogo que manda em casa.
O risco do caminho escolhido
Na própria reunião de aprovação da SAF, a oposição alertou: historicamente, o clube precisa se organizar financeiramente via recuperação judicial antes de constituir a SAF. O alerta citou o Cruzeiro, que cometeu esse erro e viu a SAF entrar como solidária em todas as dívidas do clube/associação. A diferença, segundo os conselheiros contrários, é que lá havia um investidor confirmado para resolver o problema. Aqui, não há absolutamente nada.
A própria diretoria reforça: a aprovação da SAF não significa a venda do futebol pontepretano para investidores. A proposta é apenas constituir a empresa para, posteriormente, avaliar possíveis parcerias. Não existe proposta oficial em análise.
O que não se vê, porém precisa olhar:
Dado a situação atual, ao fato de ser um clube com uma relevância estadual e até nacional e uma torcida que fica na maior cidade do estado de São Paulo fora da capital, aprovar uma SAF soa mais como uma zombaria da torcida a de fato uma coisa que precisa, isso foi mais um cala a boca, afinal a SAF é moda, todo mundo acha que SAF salva o clube, porém não é uma realidade isso.
Te faço a pergunta a você caro leitor, você acha que SAF salva seu clube ou é a administração correta? Vai pensando nas SAF’s que deram erradas por empregarem amigos dos amigos e nas que de fato deram certo e quanto tempo levou para dar certo.
O que o investidor precisa exigir antes de entrar
Primeiro: auditoria independente completa com segregação clara entre dívidas da associação e dívidas potencialmente transferíveis. A comissão criada para conduzir a SAF tem como primeira tarefa mapear as dívidas nas esferas cível, trabalhista e tributária. Esse mapeamento é pré-requisito, não etapa posterior ao investimento.
Segundo: definição do modelo jurídico de transferência do passivo. A estrutura contratual precisa isolar a SAF das dívidas históricas, o que exige aprovação judicial e, provavelmente, algum mecanismo de recuperação extrajudicial prévio.
Terceiro: valuation com base em fluxo de caixa, não em marca. Com déficit estrutural de R$ 20 a 25 milhões ao ano, receita operacional abaixo de R$ 30 milhões e passivo entre R$ 350 e R$ 400 milhões, o equity value líquido atual é negativo. O investidor que entrar estará, na prática, comprando o potencial futuro da marca e da infraestrutura, e pagando pelo saneamento de dívidas passadas. Isso tem preço, e ele precisa ser negociado com clareza.
O que a diretoria da Ponte Preta diz oficialmente
Não existe investidor. O que existe é muita especulação. Não há proposta firme e nem negociação com ninguém. A SAF foi aprovada, segundo ele, como questão de sobrevivência fiscal diante da Reforma Tributária, não pela chegada de um comprador.
Uma coisa que chama atenção é que na situação atual sem due diligence, qualquer investidor que carregar consigo algum ruído, pode simplesmente acabar com o resto da reputação da Ponte.
Vai existir futuro na Ponte Preta? E o que eu faria se fosse o diretor?
A Ponte não briga por títulos e não vai brigar, aqui a palavra de ordem é organização. Primeiro é preciso refazer toda a estrutura de “staff” da empresa Ponte Preta, recriar os fluxos de trabalho, mapear processos, demitir e contratar pessoas para o novo organograma. É necessário, realmente, um trabalho de construção. O M&A aqui não sobrevive hoje com a bagunça que está.
Depois de todo processo restabelecido, precisa de uma due diligence correta e o plano de recuperação judicial aprovado e colocado em prática, não é apenas um trabalho de aprovar algo, aqui é sobreviver fora da UTI, se manter na série B e se livrar das dívidas trabalhistas.
Terceiro ponto, aqui sim achar esse investidor, uma empresa correta e séria. E aí quem sabe, virar uma SAF de verdade.
Um abraço e até a próxima.
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Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



