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O Guarani e o peso de uma herança de 30 anos: O Bugre conseguirá se libertar?

Quando falamos de futebol, geralmente envolvemos paixão, honestidade e buscamos aquele carisma pouco visto no jornalismo. Hoje venho falar de um clube diferente, porque existem clubes e existe o Guarani de Campinas, um time que tem tudo e ao mesmo tempo nada.

O Guarani Futebol Clube, de Campinas, carrega história dentro e fora dele. Mas nos últimos anos, essa história tem o sabor amargo de uma dívida acumulada em três décadas de má gestão.

Fundado em 1911, o Bugre é o único clube do interior do Brasil a conquistar o Campeonato Brasileiro, em 1978. Uma credencial que diz muito e revelou muito. Berço de jogadores saudosistas como Careca, Edu Dracena, Amoroso, Luizão e o que falar de Djalminha? Títulos de Copa do Mundo passaram pelos pés de suas crias e sobre seu potencial, o que contrasta dolorosamente com a realidade de 2026: um clube na Série C, em recuperação judicial, com orçamento de R$ 47,5 milhões e uma eleição presidencial marcada para julho que paralisa, por ora, qualquer decisão relevante sobre seu futuro.

 

Para falar de presente é preciso ver o erro do passado

Em 2006, o Guarani anunciou uma parceria inspirada no modelo Corinthians/MSI. A empresa Turbo System prometeu quitar as dívidas do clube, trazer reforços de alto nível como D’Alessandro e Alessandro Del Piero, e estruturar o Bugre para voltar à elite nacional. Imagine Del Piero no Guarani?

O resultado foi catastrófico. A Turbo System contratou apenas o técnico Toninho Cerezo e o volante Zé Elias. O clube conviveu com o não pagamento de salários e premiações, e o Guarani acabou rebaixado no Campeonato Paulista de 2006, encerrando uma série de 56 anos do clube na elite estadual.

O pior veio depois: a descoberta da farsa foi a gota d’água para a renúncia do presidente José Luis Lourencetti. A empresa servia de fachada de Nico Nicoletti, um brasileiro que se dizia italiano, envolvido em problemas com a justiça inclusive por estelionato. Vítimas da fraude, Zé Elias e Toninho Cerezo não receberam um centavo sequer pelo período em que estiveram no clube.

O ano de 2006 ficou marcado como o pior da história do Guarani: dois rebaixamentos no mesmo ano, Paulista e Série B, com o clube caindo até a Série C.

 

A linha do tempo da decadência financeira do Guarani: 2006 a 2026

Não é uma crise. É uma herança.

2006: O estopim da Turbo System
A farsa da empresa italiana desencadeou dois rebaixamentos no mesmo ano, Paulista e Série B, e o clube caiu à Série C pela primeira vez em sua história. O FGTS já não era pago havia anos. O passivo trabalhista começou a se acumular ali.

2007 a 2010: O ciclo do engano
O Guarani subiu e desceu como num elevador quebrado. Voltou à Série A em 2010 com expectativa, e foi rebaixado novamente naquele mesmo ano. Nessa época, os salários chegaram a ficar sete meses em atraso, sem pagamento de férias, FGTS e 13º salário.

2011 a 2013: O clube que perdeu o próprio estádio
Em 2011, o clube esteve entre os últimos colocados na Série B e ficou sem pagar salários por cinco meses. Em 2013, veio mais um rebaixamento, desta vez ao Paulistão Série A2. O endividamento trabalhista acumulado foi tão grave que o clube perdeu o Brinco de Ouro em venda judicial. Em 2015, o Grupo Maxion arrematou o Brinco de Ouro da Princesa por R$ 105 milhões. Em contrapartida, o investidor se comprometeu a pagar a dívida trabalhista do clube, construir um CT, um novo clube social, uma nova arena de 12 mil lugares e patrocinar o clube por 130 meses com R$ 350 mil mensais. O Guarani continuou jogando no próprio estádio, mas sem ser o dono dele.

2013 a 2016: Quatro anos na Série C
O Guarani disputou a Série C de 2013 a 2016, sem fazer grandes campanhas e brigando contra o descenso à Série D. Em 2016, montou um elenco mais forte e conseguiu o acesso à Série B de 2017.

2017 a 2022: A ilusão da estabilidade
O clube voltou à Série B e ficou lá por anos, sem conseguir subir à Série A e sem cair à Série C. Parecia uma zona de conforto, mas era areia movediça. O FGTS continuava sem ser pago, os tributos federais acumulavam e a pandemia em 2020 agravou a situação do caixa. A dívida trabalhista mais antiga em aberto que entrou na recuperação judicial era do FGTS de um colaborador ativo desde 1988, 36 anos de atraso. A dívida cível mais antiga era de um treinador que passou pelo clube no ano 2000.

2023: A recuperação judicial
Com a dívida fora de controle, o Guarani entrou com pedido de recuperação judicial em março de 2023. À época, havia credores cíveis esperando há 25 anos para receber do clube, que também não pagava impostos desde a década de 1990. O plano foi aprovado pelos credores em fevereiro de 2024 e homologado em maio do mesmo ano.

2024: O rebaixamento que machuca mais do que os outros
Com a recuperação judicial em curso e promessas de reorganização, o clube foi rebaixado da Série B de 2024 com a pior campanha de sua história na segunda divisão, apenas 33 pontos em 38 rodadas. O impacto foi imediato: em 2024, os direitos de transmissão do Paulistão e da Série B injetaram R$ 20,49 milhões nos cofres do Brinco, representando 40% do orçamento. Com a ida à Série C, a cota da CBF caiu para R$ 1,2 milhão, uma redução de 88%.

2026: A encruzilhada
Hoje o Guarani opera com orçamento de R$ 47,5 milhões, sendo R$ 5,4 milhões destinados à recuperação judicial e bilheteria estimada em R$ 1,2 milhão. A SAF de Roberto Graziano está na mesa, a Ernst & Young modela o negócio, mas as eleições de julho e o imbróglio judicial travam tudo.

 

O diagnóstico financeiro

O passivo tributário federal do Guarani gira em torno de R$ 200 milhões, tributos que não eram pagos há cerca de 30 anos. Com o ingresso na recuperação judicial, o clube solicitou transação com a Receita Federal, e os descontos aplicados de 60% a 70% sobre esse montante resultarão em um valor final de aproximadamente R$ 65 milhões a ser quitado.

As dívidas cíveis e trabalhistas que entraram na recuperação judicial somavam inicialmente cerca de R$ 60 milhões. Após a aprovação do Plano de Recuperação Judicial pelos credores em fevereiro de 2024 e sua homologação em maio do mesmo ano, esses valores foram reduzidos com deságio médio de 50%, chegando a R$ 30 milhões, divididos em até 12 anos de pagamento.

Para 2026, o orçamento aprovado pelo Conselho prevê entradas e saídas de R$ 47,5 milhões, sendo R$ 5,4 milhões reservados exclusivamente para o pagamento da recuperação judicial e R$ 10,8 milhões destinados à folha de pessoal. A receita de bilheteria foi estimada em apenas R$ 1,2 milhão, um número que, sozinho, já diz muito sobre a fragilidade da operação corrente.

 

O valuation e a proposta na mesa

É nesse cenário que surgiu o nome mais importante dos bastidores bugrinos: Roberto Graziano, empresário e dono do Grupo Magnum. O presidente Rômulo Amaro confirmou que Graziano formalizou uma proposta para a criação da SAF, com a consultoria Ernst & Young acompanhando a modelagem do negócio. A divisão inicial discutida era de 90% para o investidor e 10% para o clube associativo, uma estrutura que, em outros casos como Cruzeiro e Botafogo, permitiu ao clube manter representação simbólica enquanto o capital privado assumia o risco operacional.

Nenhum valor oficial de aporte foi confirmado publicamente. Mas o contexto do negócio fornece balizas para uma estimativa: um clube com o Brinco de Ouro (capacidade de 29 mil pessoas), torcida estimada entre 1 e 2 milhões de bugrinos, marca centenária e sede em Campinas, a segunda maior cidade do estado de São Paulo e polo de tecnologia e inovação, possui ativos intangíveis que justificariam um valuation inicial entre R$ 150 milhões e R$ 300 milhões, dependendo do compromisso de aporte, prazo e projeção de retorno ao futebol profissional. Não por acaso, os rumores em torno da proposta falavam em R$ 800 milhões, número que, ainda que inflado para fins de negociação, revela a percepção de que o ativo Guarani está sendo negociado abaixo de seu valor de mercado enquanto permanece na terceira divisão.

 

A política que paralisa o negócio

O problema é que a definição do futuro do Guarani foi sequestrada pela crise política interna. O imbróglio judicial e a espera pelas eleições de julho são os fatores que adiam e travam a implementação da SAF, considerada a melhor saída financeira para estabilizar o clube a longo prazo. A própria cúpula admitiu que o cenário de indefinição institucional afastou investidores e interrompeu negociações vitais.

A oposição, liderada pelo empresário Felipe Roselli, contesta juridicamente a gestão atual e paradoxalmente também defende a SAF. Roselli argumenta que é preciso antes organizar a casa para valorizar o ativo e então abrir o clube para um grande negócio que realmente mude sua estrutura. Ele ressalta ainda a ausência de um Centro de Treinamento adequado como um dos principais gargalos para atrair investidores de qualidade.

Dois candidatos, uma mesma bandeira. O problema não é a SAF: é quem vai liderá-la e em que condições.

 

Serve virar SAF? A resposta é sim, mas com uma condição

O Guarani reúne praticamente todos os atributos que tornam um clube atraente para o modelo de clube-empresa: marca histórica, praça grande, torcida apaixonada e base de sócios organizada. O que falta é exatamente o que Roselli identificou: governança. Um ativo desorganizado não atrai capital sério, atrai oportunismo.

A recuperação judicial deu ao Bugre algo que ele não tinha em décadas: um cronograma de pagamentos, previsibilidade e o fim das penhoras que travavam qualquer planejamento. Esse é o alicerce. A SAF seria o próximo passo, mas não se constrói segundo andar em cima de uma fundação rachada por disputas eleitorais.

O investidor sério vai esperar o Guarani resolver sua guerra interna. E cada mês que passa nessa indefinição é mais uma janela de mercado perdida, mais um reforço que não chega, mais um ponto que fica na Série C.

O Bugre já sobreviveu a muito. A questão é se os bugrinos têm paciência para sobreviver a si mesmos.

 

O que precisa ser feito?

Primeiro passo já foi dado, a RJ está acontecendo e precisa ser concluída.

O clube está cumprindo o plano, pagando as parcelas, mas ainda está dentro do processo. A recuperação judicial tem prazo de até 12 anos para quitação total, o que significa que o Guarani vai carregar esse status pelo menos até 2035 ou 2036, dependendo do cumprimento do cronograma.

Criar um sócio que seja ativo e não passivo. Sócio torcedor precisa ser voltado a gerar receita para o clube de maneira eficaz, precisa trabalhar sua marca no interior e o principal, levar a rivalidade com o maior rival para outro nível, a fim de alavancar bem a publicidade.

Terceiro pilar: dívida se paga à vista. Fazer elencos pequenos e apostar na base, evitar contratar medalhões, o Bugre é tradicional formador de atacantes e falsos 9, os melhores saíram deles. Times como Palmeiras e São Paulo têm diversos títulos ganhos justamente com os jogadores formados no Bugre. Você acha que o Santos é formador? Precisa estudar o Bugrão primeiro.

Felipe Araujo

Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.

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