A noite de 16 de janeiro de 2026 entrará para a história do São Paulo Futebol Clube não pelos títulos que o clube se acostumou a ganhar, mas pelo ruído ensurdecedor de suas engrenagens políticas quebrando. O impeachment de Julio Casares, aprovado por 188 votos no Conselho Deliberativo, encerra um ciclo de “populismo competitivo” — a estratégia de ganhar taças (Copa do Brasil, Supercopa) às custas do estresse máximo do caixa.
Mas a queda do presidente é apenas a ponta do iceberg. O que emerge agora é um cenário de incerteza corporativa que nenhum investidor gostaria de ver: uma dívida bilionária, um sucessor de transição e um modelo associativo que agoniza.
O fator Harry Massis: Transição, estagnação e o dilema da idade
Assumir a presidência de um gigante em crise exige energia de CEO e frieza de turnaround manager. O São Paulo, por força estatutária, entrega a caneta a Harry Massis Júnior.
É preciso colocar uma verdade desconfortável na mesa: no mercado corporativo de alto nível, a nomeação de um CEO de 80 anos para liderar uma reestruturação de crise é, no mínimo, atípica. O São Paulo não é mais o clube profissional de outrora, mas também não é um grêmio amador. É uma empresa que movimenta centenas de milhões.
Massis é uma figura histórica e respeitada, mas sua chegada acende o alerta vermelho do “Risco de Vacância”. Em um ano onde o futebol exige velocidade de decisão (contratações, vendas, renegociação de dívidas), ter um mandato tampão (até o fim de 2026) liderado por alguém afastado do dia a dia executivo pode paralisar o clube.
O momento tricolor exige ruptura e ideias novas. Dificilmente uma gestão de transição nessa faixa etária trará a inovação necessária; a tendência natural é a manutenção do status quo (“mais do mesmo”). E agora, com o clube enfraquecido financeiramente, a pergunta que fica ao mercado é: quem investirá pesado em uma “empresa” com incertezas sobre quem ela mesma quer ser em 2026 e 2027?
No mundo corporativo, chamamos isso de Lame Duck Session (Pato Manco). O mercado sabe que ele está ali apenas para cumprir tabela. Isso enfraquece a posição do clube na mesa de negociação com bancos e patrocinadores.
A herança maldita: O custo do “título a qualquer preço”
A gestão Casares cai não apenas pelas denúncias políticas, mas pela insustentabilidade do modelo. A dívida, que flerta com a casa de R$ 1 Bilhão, foi o combustível das glórias recentes. O clube alavancou receitas futuras para manter um elenco caro e “dar uma resposta” à torcida.
Agora, a conta chegou. E sem a figura centralizadora de Casares, os credores tendem a ficar mais nervosos. O fluxo de caixa do São Paulo para 2026 já nasce comprometido.
O caminho da SAF: Solução de choque ou crise disfarçada?
Diante do caos político e financeiro, a discussão da SAF deixa de ser ideológica e vira sobrevivência.
Cenário com uma SAF bem implementada: Se o São Paulo optasse por uma transformação societária séria agora, o benefício imediato não seria apenas o dinheiro, mas o Compliance.
- Blindagem política: Uma SAF afastaria a gestão do futebol das brigas do Conselho que derrubaram Casares. Investidores profissionais não toleram “rachadinhas” ou esquemas de camarotes.
- Alongamento da dívida: Com a credibilidade de um novo dono ou sócio majoritário, o passivo de R$ 1 bi poderia ser reestruturado (Recuperação Judicial ou Extrajudicial), estancando a sangria dos juros.
Cenário sem SAF (o caminho atual): Mantendo o modelo associativo sob a tutela de Harry Massis, o São Paulo corre o risco de viver um 2026 de “insolvência técnica”. Sem crédito na praça e com um presidente de transição, o clube pode ser forçado a vender suas joias da base (William Gomes, Henrique, etc.) a preço de banana para pagar a folha salarial. É o cenário de “cruzeirização” antes da queda.
O significado da troca
O impeachment de Julio Casares foi um ato político necessário, mas não resolve o problema estrutural. Trocou-se o comando, mas a “máquina de moer reputações” e de gerar dívidas continua lá.
Harry Massis Júnior tem a missão ingrata de ser o síndico de um prédio em chamas. Se o São Paulo não aproveitar este trauma para discutir profissionalização real — seja via SAF ou uma reforma estatutária radical que coloque CEOs de mercado no poder — 2026 não será lembrado como o ano da limpeza, mas como o ano em que o gigante finalmente parou.
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



