Bem-vindo, leitores. Se existe um assunto que mexe com o imaginário do torcedor e abre espaço para sonhar com dias melhores, esse assunto é SAF.
No Brasil, criou-se a ideia de que virar SAF é o caminho automático para voltar a conquistar títulos. O que muita gente esquece é que existem outros 19 clubes pensando exatamente a mesma coisa. E foi nesse embalo que um clube tradicional, muito tradicional dentro do cenário brasileiro e principalmente no estado de São Paulo, resolveu apostar suas fichas na possibilidade de que uma SAF possa ser a salvação de sua história.
E que história.
São oito títulos brasileiros, três Libertadores e uma Copa do Brasil.
Já sabe de quem estamos falando?
Qual o valuation do negócio?
Se tem uma coisa que eu não gosto muito é esse tal de valuation.
Na prática, valuation é uma estimativa. É o mercado tentando adivinhar quanto vale um ativo antes de alguém efetivamente colocar dinheiro na mesa.
Mas como a informação está aí, precisamos falar dela.
A proposta não vinculante da SDC Sports, grupo americano ligado à família Santo Domingo, prevê:
- Aporte de até R$ 1 bilhão no clube;
- Assunção de aproximadamente R$ 1 bilhão em dívidas;
- Em troca de cerca de 80% da futura SAF.
Quando olhamos para a operação como um todo, estamos falando de algo próximo de R$ 2 bilhões entre investimento e passivos assumidos.
As estimativas de mercado variam bastante.
| Fonte | Ano | Valuation aproximado | Observação |
|---|---|---|---|
| Sports Value | 2024 | US$ 165 milhões (aprox. R$ 900 milhões) | Marca e operação |
| Negociação SDC Sports | 2026 | R$ 1,2 a R$ 1,5 bilhão | Baseado na proposta de 80% |
| Estimativas anteriores | 2025 | Até R$ 2,2 bilhões | Antes da diligência |
O número mais atual e relevante hoje é justamente o da negociação conduzida pela SDC Sports, que coloca o valor da futura SAF entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão.
Mas existe um detalhe importante.
O valuation definitivo só será conhecido quando a proposta vinculante for apresentada e aprovada pelos órgãos competentes do clube. E agora já sabe de quem falamos? Ficou fácil, é o Santos.
A proposta da SAF
O Santos assinou um term sheet não vinculante com a SDC Sports LLC para a venda de participação de controle da futura SAF.
A proposta inicial apresentada em fevereiro de 2026 previa:
- Aproximadamente R$ 1 bilhão em aporte;
- Assunção de cerca de R$ 1 bilhão em passivos;
- Aquisição de aproximadamente 80% das ações.
Os valores e os percentuais ainda podem sofrer alterações. Algumas informações de bastidores apontam para negociações que podem chegar a até 90% de participação.
Outro ponto importante é que a due diligence foi concluída após cerca de cinco meses de análise.
Participaram do processo empresas como Rothschild, Alvarez & Marsal, BMA e XP.
Ou seja, não estamos falando de uma conversa de corredor.
Existe um processo estruturado em andamento.
A dívida do Santos
Os números mais recentes mostram que o Santos encerrou 2025 com um endividamento próximo de R$ 1 bilhão.
Os principais indicadores são:
- Dívida total: R$ 998,5 milhões;
- Passivo total: superior a R$ 1,23 bilhão;
- Receita de 2025: R$ 678 milhões;
- Déficit de 2025: R$ 79,3 milhões.
Existe um dado que chama bastante atenção.
A dívida representa aproximadamente 1,47 vez a receita anual do clube.
Para qualquer empresa, seja ela do futebol ou não, é um indicador preocupante.
E os números continuam crescendo.
Com a atualização do primeiro trimestre de 2026, o passivo já teria ultrapassado R$ 1,09 bilhão.
É justamente por isso que a discussão sobre SAF ganhou tanta força dentro da Vila Belmiro.
A dívida com Neymar
Sim, meus amigos, além da dívida tradicional do clube, existe também a dívida ligada à NR Sports, empresa da família Neymar.
A situação atual aponta:
- Dívida originalmente reconhecida: R$ 90,5 milhões;
- Pagamento realizado: cerca de R$ 11 milhões;
- Saldo restante aproximado: R$ 79,9 milhões.
O acordo mais recente prevê:
- Parcelas mensais de R$ 1 milhão;
- Início dos pagamentos em janeiro de 2027;
- Sem juros;
- Sem multa;
- Sem correção monetária.
O pagamento pode se estender até 2032 ou 2033, dependendo da evolução do saldo.
E existe um detalhe importante.
O CT Meninos da Vila continua vinculado como garantia da operação.
Caso haja inadimplência, a NR Sports poderá solicitar medidas sobre o imóvel, sempre respeitando as aprovações previstas pelo Conselho Deliberativo.
E se virar SAF?
Mas afinal, o que acontece com essa dívida se o Santos virar SAF?
A resposta é simples. Hoje, a transformação em SAF não provoca vencimento antecipado da dívida com Neymar. Essa cláusula existia em versões anteriores do acordo, mas foi retirada nos aditamentos mais recentes.
Na prática, a dívida continua parcelada e seria transferida para a futura SAF. A própria SDC Sports já sinalizou disposição para assumir os passivos da operação.
Os próximos passos
Antes de qualquer assinatura definitiva, ainda existe um caminho importante pela frente.
1. Apresentação da SDC Sports
Em 31 de agosto de 2026, representantes da SDC Sports apresentarão oficialmente o projeto ao Conselho Deliberativo.
Não haverá votação nessa etapa.
2. Reforma do Estatuto
O estatuto atual limita a venda a 49% das ações.
Para permitir uma venda entre 80% e 90%, será necessária uma alteração estatutária.
3. Aprovação pelo Conselho
O Conselho Deliberativo precisará aprovar: a criação da SAF; a venda do controle; os termos gerais da operação.
4. Assembleia dos Associados
Após isso, os sócios do clube deverão ratificar a operação.
5. Proposta vinculante
A SDC Sports apresentará a versão definitiva da proposta, com valores, obrigações e contratos finais.
6. Constituição da SAF
Somente após todas essas etapas ocorrerá a formalização da Sociedade Anônima do Futebol e a transferência dos ativos e passivos para a nova estrutura.
Afinal, vai dar certo?
A pergunta de um bilhão de reais talvez seja justamente essa. O Santos está vendendo uma SAF ou está tentando comprar tempo para reorganizar sua própria história?
Quando observamos uma dívida próxima de R$ 1 bilhão, um passivo superior a R$ 1,2 bilhão e a necessidade de um investidor disposto a colocar mais R$ 1 bilhão dentro da operação, fica claro que a discussão já deixou de ser apenas esportiva.
Hoje o debate é financeiro. A SAF pode trazer capital, governança, estrutura e capacidade de investimento. Mas existe algo que dinheiro nenhum compra.
Gestão.
Se a mentalidade interna mudar, o Santos pode iniciar uma nova fase e voltar a disputar títulos de forma consistente. Se a mentalidade continuar a mesma, o risco é simplesmente trocar o modelo jurídico sem resolver os problemas que levaram o clube até aqui. O futuro ainda ninguém conhece.
Mas uma coisa é certa. O Santos parece caminhar cada vez mais na direção da SAF.
Agora resta saber se ela será o início da solução ou apenas mais um capítulo de uma história que o torcedor santista já está cansado de viver e o Santos ficar para sempre estacionado…
Felipe Araujo
Diretor de Estratégia M&A e FP&A no Futebol. Especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva.



