O rebaixamento matemático do América para a Série C do Campeonato Brasileiro provocou um forte mea-culpa da alta cúpula alviverde. Em pronunciamento veiculado na Coelho TV neste sábado (10), o presidente do conselho de administração do Coelho, Márcio Vidal, falou em nome da diretoria para assumir a responsabilidade direta pelo colapso esportivo na Série B e classificar a campanha como inaceitável para o tamanho da instituição de 114 anos. “Estamos todos no conselho de administração, comitê de gestão e diretoria envergonhados, tristes e extremamente decepcionados com os resultados do América no Campeonato Brasileiro da Série B de 2026. Isso absolutamente não condiz com a nossa história e tradição, nem condiz com o grupo de atletas que foi planejado para a competição”, declarou.
O pedido de perdão foi estendido a todos os públicos do clube. Aos torcedores, que “em toda a competição estiveram presentes com apoio e incentivo”; aos funcionários, que “estão sofrendo com constantes atrasos salariais e dificuldades de manter as atividades no dia a dia”; e aos treinadores que passaram pelo comando técnico, por não ter conseguido dar a eles “as condições de trabalho ideais” — um ambiente coeso e harmônico, nas palavras do dirigente, “praticamente inalcançável com atrasos salariais seguidos há mais de dois anos”. Vidal também reconheceu o peso das críticas das arquibancadas e resumiu a lógica da cobrança: “Se os resultados forem positivos, elogios. Se os resultados forem negativos, todos são incompetentes e precisam ser substituídos. Essa é a cultura do futebol do Brasil.”
Folha inflada, receitas antecipadas e o veto à SAF
O pronunciamento também funcionou como um raio-X financeiro do clube. Para Vidal, a asfixia econômica foi o fator determinante do desastre: “do conjunto de causas que construiu a queda em campo, certamente foi a mais preponderante”. O diagnóstico aponta os anos de sucesso recente — com classificações para a Copa Libertadores e a Sul-Americana — como a origem do problema: a folha salarial do futebol chegou a “níveis jamais alcançados em nossa história”, e, quando as receitas voltaram a patamares modestos, o clube ficou incapaz de arcar com “custos estratosféricos” de rescisões de contratos e acordos trabalhistas pactuados naquela época, além do endividamento bancário e tributário de décadas. O dirigente admitiu ainda práticas históricas de gestão: “Não pagar tributos como Imposto de Renda e IPTU já era prática há décadas, sempre esperando parcelamentos que ocorreram, mas quase nunca honrados. Junte-se a isto a alta dos juros em cinco anos, fazendo com que o clube tivesse custo de dívida cada vez maior.”
Outro ponto sensível foi o esgotamento das fontes de receita: segundo o presidente, os valores provenientes do Shopping Boulevard — um dos principais patrimônios do América — vêm sendo antecipados desde a inauguração para cobrir o déficit operacional rotineiro, “obviamente porque há décadas precisamos de receitas antecipadas para minimizar os déficits anuais, e a conta não fechava”. Vidal revelou, ainda, ter falhado na tentativa de construir um consenso político interno para a venda de um ativo ou a criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) — a empresa que assumiria a administração do futebol profissional e que, segundo ele, “seria a solução para eliminar o endividamento”. Desde que assumiu o mandato do Conselho de Administração, em 2024, defendia essa saída, mas o ambiente político — “vaidades, desunião, entrevistas intempestivas” e “vetos por interesses pessoais e políticos” — impediu o avanço. O alerta final foi contundente: “sem um dinheiro em caixa urgente, oriundo de venda de ativo ou da venda da SAF, pouco provável no momento, qualquer solução para o nosso endividamento nascerá morta.”
Transição política para 2027
Além da crise financeira, o América encara um calendário político afunilado. Vidal explicou que o clube terá eleições para os conselhos deliberativo, de ética e fiscal em outubro, e para o novo conselho de administração no fim de novembro — data em que o plantel já estará de férias e quando faltará pouco para o Campeonato Mineiro de 2027, que começa em 9 de janeiro. “É urgente a definição dos novos mandatários, pois a lentidão na composição do novo comando do futebol — direção, comissão técnica, diretores da SAF etc. — pode ser fatal”, alertou. O risco é concreto: o técnico Moacir Júnior, de 59 anos, apresentado na sexta-feira (9) no CT Lanna Drumond, em sua segunda passagem pelo Coelho, tem vínculo apenas para as seis rodadas finais da Série B — com o rebaixamento consumado e 21 pontos de distância para o primeiro time fora do Z-4, a comissão tem como objetivo imediato reverter a imagem apática do time e servir de ponto de partida para a reestruturação. Ao fim do torneio, o futebol do clube corre o risco de ficar sem comando técnico e sem diretoria definida justamente no momento de montar o elenco do próximo ano.
O atual conselho, segundo Vidal, evita tomar decisões de longo prazo para não engessar os sucessores e trabalha “para entregar o clube na melhor condição possível” — mas o vácuo de poder em dezembro pode paralisar a montagem do time para a estreia no Estadual. Na disputa política, as principais lideranças buscam a construção de uma chapa única, e o próprio Vidal abriu mão da reeleição: “Do atual conselho de administração, apenas dois — eu, Márcio Vidal, e Luís Roberto Filizola — poderíamos nos candidatar à reeleição, mas deixamos os novos pretendentes inteiramente livres para fazer as suas escolhas.” O presidente lamentou a resistência que encontrou ao tentar profissionalizar a gestão — “Falhei neste ponto, fui vencido pelo sistema” — e criticou quem defende soluções radicais: “Se iludem aqueles que acham que implodir tudo e começar do zero é receita de sucesso.” O apelo final foi pela união: “São 114 anos de história correndo risco por falta de união e consenso. O clube já enfrentou momentos terríveis e sempre se reergueu. Assim será novamente.”
Fonte: No Ataque; No Ataque 2; No Ataque 3.



