O advogado André Sica, representante de Marcos Lamacchia na operação de compra da SAF do Vasco, concedeu entrevista ao ge e detalhou os pilares do negócio, além de rebater as críticas sobre conflito de interesses levantadas pelo Flamengo. Com experiência em operações similares no Cruzeiro, Bahia, Coritiba e Bragantino, Sica demonstrou confiança na conclusão do processo e garantiu que o grupo de Lamacchia atenderá a qualquer determinação da CBF ou da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF). O Flamengo acionou a ANRESF na quarta-feira (16) para questionar a operação, argumentando que Marcos Lamacchia — filho de José Lamacchia e enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras — teria influência simultânea sobre dois clubes, o que é vedado pelo artigo 86 do Sistema de Sustentabilidade Financeira.
Sica tratou a questão com naturalidade e afirmou que a contestação não preocupa o grupo comprador. “Sinceramente, a gente vê isso como um problema completamente desarrazoado. Completamente sem fundamento pelas mais diversas razões. A razão mais óbvia e mais clara é que ainda não existe conflito nenhum, porque nem a operação foi feita”, declarou. Ele também assegurou que Lamacchia está disposto a se adaptar integralmente às regras: “A gente vai implementar qualquer tipo de solução proposta pela CBF. Tão simples quanto isso. O Marcos tem total condição de implementar qualquer uma das operações que serão sugeridas pela ANRESF. Então dentro disso, a operação vai acontecer, é importante que se diga. Ela vai acontecer.” Sica acrescentou ainda que, mesmo que fosse identificado um conflito técnico, ele existiria por menos de um ano e que Lamacchia teria tranquilidade para implementar qualquer sugestão.
Mecanismo de blindagem e a estrutura do investimento bilionário
Para evitar que as disputas judiciais envolvendo o controle acionário da SAF — especialmente os 33% das ações da 777 Partners que seguem pendentes de definição em tribunal arbitral — comprometam a venda, o Vasco estruturou um mecanismo de blindagem por meio da chamada UPI Equity (Unidade Produtiva Isolada), prevista no plano de recuperação judicial homologado pela Justiça. O instrumento permite que a empresa em recuperação judicial venda ações livres de obrigações, dívidas ou outros passivos. O plano prevê duas possibilidades: a emissão de novas ações da atual SAF ou a criação de uma nova sociedade anônima que receberia os ativos do futebol. Nesse segundo cenário, a nova empresa herdaria os bens, mas não as dívidas da SAF controlada pela 777 Partners, embora tenha de cumprir o pagamento aos credores nos termos do plano homologado. O processo competitivo é regido por edital publicado pela 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, com a Almirante Participações na condição de investidora âncora, com direito de preferência para igualar eventuais propostas concorrentes.
Sica detalhou os números da operação. O primeiro pilar é o passivo da recuperação judicial, estimado em R$ 1,3 bilhão, que deve cair para cerca de R$ 800 milhões após negociações, somados a R$ 300 milhões em dívidas fiscais. “A gente está falando de quase R$ 1,1 bilhão em dívidas que precisam ser pagas”, afirmou. Em seguida, o grupo projeta equacionar o fluxo de caixa, que hoje apresenta um prejuízo de mais de R$ 300 milhões entre receitas e despesas. “Ou seja, estou garantindo, pelo menos em cinco anos, que vou equalizar isso. Garantindo mais R$ 1,5 bilhão”, explicou. Além disso, estão previstos R$ 500 milhões em aportes no futebol ao longo de cinco anos, R$ 120 milhões para o centro de treinamento e R$ 30 milhões para melhorias imediatas nas categorias de base nos próximos dois anos. O advogado fez questão de diferenciar o perfil do novo investidor em relação à experiência anterior com a 777 Partners: “O perfil desse investidor é tão diferente da 777, mas tão diferente, é difícil até começar a dizer o quão diferente ele é. Primeiro: ele tem recursos muito maiores e muito mais ilimitados. Ele tem uma abundância de recursos, não escassez. Segundo, é um investidor local, conhecido.”
Sobre as negociações em andamento com a 777 e a A-CAP para resolver a pendência acionária, Sica foi discreto: “A gente tem que falar pouco. Quando a gente tem negociação em curso, se fala menos e se faz mais. É por isso que vocês não ouviram a gente fazer nenhum comentário ao longo dessas negociações durante todos esses anos.” Ele assegurou que o assunto faz parte dos compromissos firmados no acordo com o Vasco e que a conclusão não é uma preocupação para o grupo. Por fim, descartou qualquer condicionante relacionada ao desempenho esportivo: “Se o Vasco cair, o acordo continua de pé porque o acordo não foi condicionado à permanência do Vasco. Mas o Vasco não vai cair de jeito nenhum, e a operação vai acontecer.”



