No mercado de captação de investimentos, existe uma máxima cruel: “Quem corre para vencer no domingo, vende carros na segunda.” Entretanto, quem tem pressa “come cru” e quem tem desespero, vende mal. Foi assim na Fórmula 1, no Calcio dos anos 80, e é assim nas SAFs brasileiras hoje.
O Ferroviário Atlético Clube, patrimônio histórico do futebol cearense, protagoniza hoje o que tecnicamente chamamos de Distressed M&A (Fusão e Aquisição em estresse). A transformação em SAF não foi desenhada como um processo de expansão, mas como um pedido de socorro. E o mercado cobra caro por isso.
Preocupados com a opacidade dos números, auditei os dados públicos e cruzei com documentos internos da negociação com o Grupo Makes. O diagnóstico muda de “Alerta” para “Risco Existencial”.
O que NÃO fazer em uma SAF.
O investidor: A “empresa de papel” de R$ 1.000,00
Em qualquer due diligence (diligência prévia), a regra zero é o background check (checagem de antecedentes). Quem são as pessoas físicas por trás do CNPJ? Os documentos obtidos são gravíssimos e, na minha visão de gestor, inviabilizam a operação imediatamente:
- O fato: Um dos sócios da empresa investidora (MAKES LTDA), o Sr. Rui Jorge Paducho dos Santos, possui sentença de insolvência (falência pessoal) proferida pelo 2.º Juízo Cível do Tribunal da Comarca da Maia, em Portugal.
- O significado técnico: Insolvência significa que a justiça reconheceu que o indivíduo não possui capacidade de pagar suas próprias dívidas. Seus bens passam a ser administrados por um administrador judicial.
- A “mágica” do capital social: A empresa MAKES, que iniciou com R$ 1.000,00, agora apresenta um capital social de R$ 5.000.000,00 no papel. Porém, “papel aceita tudo”. Como um sócio declarado insolvente na Europa pode ser garantidor de uma operação de R$ 100 milhões no Brasil?
Minha visão de gestor: Isso é a maior red flag (alerta vermelho) do mercado. Se essa empresa bater na porta de um banco de primeira linha pedindo financiamento, o crédito é negado. Como vamos entregar 90 anos de história e um contrato de R$ 100 milhões para uma estrutura que vale menos que um salário mínimo? Garantias verbais não valem nada. Sem bank guarantee (garantia bancária sólida), o contrato vale tanto quanto um guardanapo. Pergunta simples: Você, com um salário mínimo, consegue um empréstimo de R$ 100 milhões no banco? Se sim, me diga onde, que eu também quero ir.
A armadilha da recuperação judicial (RJ)
Aqui reside a engenharia do caos. O investidor condicionou o aporte de R$ 3 milhões a uma cláusula leonina:
- A obrigação: O clube é obrigado a entrar em recuperação judicial para receber o dinheiro.
- O conflito: O investidor exige escolher a banca de advogados que conduzirá a RJ. Ou seja, o advogado do devedor será pago pelo credor.
- O risco real: Sem receita de aluguel (pois o estádio foi cedido em comodato) e sem o futebol, a Associação fica sem caixa. Se o juiz não aprovar a RJ, a falência é decretada e o Elzir Cabral vai a leilão. E quem será o único com dinheiro para arrematar o estádio a preço de banana? O próprio investidor.
O paralelo histórico (caso Varig): Isso lembra a falência da Varig. Na época, credores como a Philips (motores) queriam a falência imediata. Motivo? Poderiam comprar a massa falida barato e rentabilizar o ativo, mesmo não sendo do setor aéreo. A diferença é que a Varig tinha contratos bem amarrados que impediam decisões unilaterais da sede na Holanda, o que permitiu aprovar a RJ e dar sobrevida à empresa. O Ferroviário não tem essa amarração. O risco de liquidação é total.
Valuation: A matemática do absurdo
Os números apresentados ofendem a inteligência de quem conhece a operação do futebol.
- O aporte imediato: Apenas R$ 500 mil garantidos no início.
- O choque de realidade: A folha salarial de um time competitivo de Série C gira em torno de R$ 700 mil a R$ 1 milhão. Ou seja, venderam o controle do clube por meio mês de folha salarial.
O que eu faria (a régua do mercado): Se eu sou o gestor, R$ 500 mil não paga nem a rescisão do elenco atual. A engenharia falhou em garantir o mínimo. O meu pedido base seria de R$ 36 milhões à vista. Por que esse número? São 3 anos de folha salarial garantida em dia. Isso permite atrair atletas de nível de Série B, garantir calendário cheio e fazer campanhas lucrativas na Copa do Brasil e Nordeste. Sem esse “colchão”, a SAF já nasce quebrada.
Além disso, a promessa de orçamento de R$ 10 milhões na Série D é inócua. O clube, sozinho, já faturou R$ 11 milhões em 2023. Onde está o delta (o dinheiro novo)? Se o investidor vai apenas manter o que o clube já faz, para que vender? O parceiro precisa vir para dobrar o faturamento, não para administrar a miséria.
O ciclo da falência e a lição da história
Não se enganem com nomes bonitos. Antigamente chamávamos de “parcerias”.
- Palmeiras & Parmalat (2002): Com a saída da marca, o clube amargou o rebaixamento.
- Corinthians & MSI (2007): Quando Kia Joorabchian saiu, o clube caiu para a Série B.
Isso aconteceu com gigantes de massa. Imagine em um clube menor. O cenário provável aqui é o ciclo da ilusão:
- A SAF contrata ex-jogadores famosos no início para “dar satisfação”.
- A conta não fecha. O investidor começa a vender ativos para recuperar capital. “Vá com Deus e sou grato”.
- Chegam jogadores medianos, o time cai de divisão.
- A SAF quebra e devolve o clube endividado para a Associação. Fim da linha.
A visão estratégica (o case Red Bull): Compare com o Bragantino. A Red Bull apresentou um projeto de Série A. Para eles, a marca na camisa vale mais que um outdoor na Conmebol. Isso é projeto de branding. O que o Grupo Makes apresentou? Promessas vazias.
Infraestrutura: OPEX não é CAPEX
O contrato prevê R$ 8 milhões em reformas no Elzir Cabral até 2029.
Minha Análise Técnica: R$ 8 milhões em 4 anos para um equipamento desse porte é manutenção (OPEX), é pintura e grama. Não é transformação (CAPEX). Para se ter uma ideia franca:
- Cuiabá: Investiu R$ 50 milhões no CT.
- Mirassol: Investiu R$ 15 milhões. Olhe onde esses clubes estão: na Elite. O plano correto deveria ser escalonado: R$ 8 milhões no Dia Zero + R$ 8 milhões no acesso à Série B, focados na Base (ativo 100% seu, custo barato e venda em Dólar).
A VISÃO DO DIRETOR
Se estivéssemos na cadeira de negociação (sell-side), travaríamos essa operação agora. O futuro do Ferroviário exige profissionalismo.
O que deveria ser feito?
- Roadshow competitivo: Jamais negociar com um único interessado. O Ferroviário é a terceira força de um estado rico. Deveria ter contratado uma Boutique de M&A (como XP ou BTG) para oferecer o clube a 5 ou 10 fundos, criando um leilão real.
- Valuation da marca: Estão vendendo o clube pelo valor da dívida, ignorando o Brand Equity.
- Trava de performance: Cláusula de recompra automática (Call Option) caso o investidor não suba de divisão em 3 anos.
Conclusão executiva: O Ferroviário não precisava de um “Salvador da Pátria” desconhecido de R$ 1.000,00 de capital. Precisava de Gestão Profissional e Compliance. A SAF atual parece uma operação de crédito cara e perigosa. O torcedor coral merece transparência. A história do Ferrão não está à venda na xepa – embora tenha sido vendida na xepa. Como gestor, eu faria o caminho inverso: buscaria a RJ sozinho, pediria uma análise da BTG e venderia o case estruturado para colocar o Ferroviário na Série B em 3 anos. Não sou torcedor do Ferroviário, sou um executivo de carreira. Assim como Alexandre Mattos começou de baixo no América-MG e virou referência, a gestão moderna se prova nos desafios difíceis. O “garoto de Minas” venceu lá, e este aqui também tem o plano para vencer.
Nota de transparência: Este artigo não tem cunho jornalístico isento; trata-se de um artigo de análise crítica, opinião e posicionamento do autor sobre o tema proposto.
Aviso Legal: O autor assume total responsabilidade pelas ideias expostas neste artigo de opinião.
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



