Enquanto o mercado brasileiro se acostumou com SAFs nascendo do desespero (o modelo “venda ou falência”), a Chapecoense retorna à Série A em 2026 reescrevendo o manual de turnaround desportivo.
O clube catarinense, rebaixado em 2021 e atolado em dívidas pós-tragédia, não buscou um “salvador” imediato. Em vez disso, utilizou a Lei de Recuperação Judicial (RJ) como ferramenta de gestão, e não apenas de proteção. O resultado? Um retorno à elite com o balanço saneado, tornando-se o primeiro clube do Brasil a entrar e sair com êxito de uma RJ.
A estratégia de deleveraging (desalavancagem)
A Chapecoense entendeu que vender a SAF com R$ 200 milhões de dívida seria entregar o controle por preço de banana (o famoso valuation deprimido). A diretoria optou pelo caminho mais difícil: sanear primeiro, vender depois.
- O mecanismo: O clube utilizou a Recuperação Judicial para renegociar passivos cíveis e trabalhistas com deságios agressivos (chegando a 85% em alguns casos).
- O resultado (setembro 2025): A Chape encerrou oficialmente sua RJ, algo inédito no futebol brasileiro.
- A dívida real hoje: Estima-se que o passivo controlado gire em torno de R$ 32 milhões (R$ 12mi na RJ + R$ 20mi tributários parcelados). Para um clube de Série A, isso é uma dívida operacional irrisória.
O acesso de 2025: Eficiência operacional
Sem o aporte bilionário de um dono, a Chape subiu para a Série A de 2026 na base da eficiência de custos.
- KPIs de acesso: 3º lugar na Série B 2025, com 62 pontos.
- Orçamento: Operou com uma folha salarial enxuta, focando em atletas com contratos de produtividade.
- Elenco 2026: Para a estreia na elite, o clube buscou nomes experientes a custo zero de aquisição, como Yannick Bolasie (ex-Criciúma/Cruzeiro) e Bruno Pacheco (ex-Fortaleza). Isso é gestão de OPEX (despesa operacional) sem comprometer o CAPEX.
A SAF em 2026: O ativo na vitrine
A Chapecoense já superou a fase burocrática (o estatuto já foi modernizado e a SAF constituída juridicamente). O que está na mesa agora é o roadshow de captação.
O status da votação (onde estamos?)
- Fase vencida: O Conselho Deliberativo já aprovou a constituição da SAF. Juridicamente, o veículo de investimento já existe.
- A próxima votação (o “deal”): A comissão criada pelo Conselho está filtrando propostas. A votação que o mercado aguarda para 2026 é a aprovação da proposta vinculante. Os conselheiros não vão mais votar “se querem SAF”, mas sim “se aceitam o Investidor X pelo valor Y”.
A tese de venda: “Smart money” vs. “Rescue money”
O grande trunfo da Chapecoense foi ter encerrado sua Recuperação Judicial em setembro de 2025.
- O que esperam com a SAF? Diferente do Vasco ou Cruzeiro, que buscaram dinheiro de resgate (Rescue Money), a Chape busca dinheiro inteligente (smart money).
- Expectativa do Conselho: Eles buscam um parceiro estratégico que traga:
- Network global: Conexão com a Europa para valorizar a base.
- Tecnologia de gestão: Modernização do departamento de futebol.
- Valuation premium: Como a dívida está controlada em cerca de R$ 32 milhões, eles esperam vender o controle por um valor muito superior ao que conseguiriam dois anos atrás.
A recuperação judicial: Marco histórico
O cenário Pré-RJ: Insolvência técnica Em 2022, a Chapecoense era um “paciente terminal”. Passivo de ~R$ 250 milhões e risco iminente de falência.
A estratégia de haircut (o corte de dívida) A gestão impôs um deságio agressivo aos credores.
- O plano: Deságios de até 85% sobre dívidas sem garantia.
- A lógica: Convenceu os credores de que receber 15% era melhor que 100% de nada em uma falência.
O pagamento antecipado (setembro 2025)
- O feito: Quitação das obrigações iniciais em menos de 3 anos.
- Dívida remanescente: Transformou dívida vencida sufocante em parcelas gerenciáveis de longo prazo.
Sinalização ao mercado Ao encerrar a RJ, o clube retira o carimbo de “crise” do CNPJ, recuperando acesso a crédito bancário saudável e triplicando o valuation da SAF.
O salto orçamentário (budget 2026)
A Chapecoense sai de uma operação de guerra na Série B para uma operação de elite.
- Receita global: Salto de ~R$ 42 milhões (2025) para ~R$ 140 milhões (2026).
- Visão de CEO: Esse aumento de 3x foi para sustentar o custo logístico e a folha competitiva da Série A, não para o bolso de terceiros.
- Folha salarial:
- 2025 (Série B): ~R$ 2,5 milhões/mês.
- 2026 (Série A): Projeção de R$ 5 a R$ 6 milhões/mês.
- Análise: Ainda será uma das menores folhas da Série A, mas paga em dia. No mercado, R$ 5 milhões na conta valem mais que R$ 10 milhões na promessa.
A engenharia do elenco: Risco e oportunidade
O Diretor de Futebol investiu em “salários e luvas diluídas”, buscando jogadores livres.
- A “grife” de baixo custo: Yannick Bolasie (Atacante).
- A espinha dorsal: Bruno Pacheco (Lateral), Rafael Thyere (Zagueiro), Giovanni Augusto e Jean Carlos (Meias).
- Apostas: Ênio (Atacante), João Victor e Marcos Vinícius (Avaí).
Alerta de CEO (o risco oculto): Aqui preciso fazer um alerta grave. 90% dos atletas que circulam “de graça” no mercado nacional estão nessa condição porque não renderam o esperado na temporada anterior (vide casos como Lucas Lima no Sport). Geralmente, implicam em custos altos de salário sem garantia de performance.
Na minha visão executiva, essa engenharia de “reciclagem de veteranos” deveria ser trocada por investimento na categoria de base: custo zero real e potencial de venda futura (upside). Times que montam elencos assim lutam para não cair. Vamos ver se a Chapecoense será a exceção.
A Chapecoense provou que a Recuperação Judicial é a ferramenta mais poderosa para clubes endividados que não querem entregar o patrimônio a preço vil. Eles limparam o balanço para atrair um investidor estratégico, não um oportunista.Em 2026, a Chape não joga apenas contra o rebaixamento; ela joga para provar que a gestão profissional (mesmo sem dono) valoriza o equity mais do que qualquer injeção de capital desesperada.
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



