O América-MG decidiu ampliar o escopo de sua negociação de Sociedade Anônima do Futebol, incluindo o Centro de Treinamento Lanna Drumond no “pacote” de venda para potenciais investidores. Conforme admitiu Alencar da Silveira Júnior, ex-presidente do conselho administrativo do clube que segue atuando na instituição, a inclusão de infraestrutura patrimonial oferece atrativo adicional que pode facilitar atração de parceiros. O clube busca vender 70% do futebol e do CT para um único investidor, estratégia inspirada no Cruzeiro, que incluiu patrimônio em sua venda de SAF. Segundo Alencar, a ampliação da oferta responde a dinâmica de mercado em que potenciais investidores esperam que patrimônio físico seja incluído em transações de SAF, criando percepção de maior retorno sobre investimento.
A evolução da estratégia de venda
A decisão do América-MG de incluir o CT Lanna Drumond representa mudança estratégica significativa em abordagem ao processo de venda de SAF. Inicialmente, o clube havia planejado comercializar apenas o departamento de futebol — estrutura operacional, direitos de jogadores, receitas de transmissão. Essa era a configuração tradicional de muitas transformações em SAF: empresa de investidores adquire os direitos de exploração comercial e esportiva do futebol do clube, enquanto a associação retém patrimônio imóvel (estádios, centros de treinamento) e outras estruturas.
A mudança de abordagem, conforme revelado por Alencar, responde à realidade de mercado: “Abrimos o leque, o mundo inteiro está entrando em contato com o América. Antes íamos entrar só com o futebol. Hoje já temos a condição de entrar com o CT mais o futebol do América para buscar um parceiro.” Essa abertura reflete o reconhecimento de que uma oferta expandida tem maior poder de atração em mercado competitivo de investimentos em SAF. O investidor que adquire apenas os direitos esportivos enfrenta risco operacional elevado — depende de infraestrutura que o clube retém para treinar atletas, desenvolver categorias de base, realizar atividades administrativas. O investidor que adquire também patrimônio (no caso, CT) obtém controle sobre infraestrutura crítica e potencial de monetização adicional através de aluguel ou venda de capacidade ociosa.
A lógica de incorporação patrimonial
Alencar da Silveira Júnior invoca explicitamente o precedente do Cruzeiro como referência para a estratégia do América. Segundo ele, quando o Cruzeiro fechou sua SAF, “colocou patrimônio” na transação. Essa inclusão teve efeito psicológico em mercado de investimentos: “Aí o cara pensa que tava pagando aquilo para o Cruzeiro com o patrimônio, como do América não vai receber?” A observação de Alencar toca em lógica comparativa que opera entre investidores analisando múltiplas oportunidades de SAF: se o clube concorrente incluiu patrimônio e isso foi valorizado pela comunidade de investimentos, por que outro clube não faria o mesmo?
A referência ao Cruzeiro é relevante porque o clube mineiro enfrentava situação financeira similarmente crítica à do América. Ambos os clubes precisavam de capital significativo para resolver os passivos históricos e retomar competitividade. Ambos reconheceram que a venda de SAF seria mecanismo viável de atração de investimentos. A decisão do Cruzeiro de incluir patrimônio em sua transação estabeleceu um precedente que muda a expectativa de mercado: o patrimônio deixa de ser componente optativo de venda de SAF e passa a ser elemento esperado.
Para o América, esse precedente oferece tanto um desafio quanto uma oportunidade. Desafio porque o mercado agora espera que o patrimônio seja incluído — ausência dele pode ser interpretada como um sinal de fraqueza ou falta de confiança na qualidade do ativo patrimonial. Oportunidade porque o clube consegue diferenciar sua oferta em relação a concorrentes que vendem apenas futebol, oferecendo ao investidor um pacote mais robusto.
O CT Lanna Drumond especificamente tem um valor significativo. Centro de treinamento moderno é um ativo que oferece múltiplas possibilidades de monetização: além de infraestrutura para treino do próprio clube, pode ser alugado para outras equipes, sediar eventos, clínicas de formação de jogadores, atividades de ciência e análise de desempenho. Para um investidor que adquire 70% do futebol e do CT, a estrutura permite não apenas a gestão de time profissional, mas também desenvolvimento de receitas complementares que não derivam diretamente de resultados esportivos.
A estratégia do América de expandir sua oferta para buscar parceiros reflete a compreensão de que o mercado de SAF está amadurecendo. O clube não compete apenas por uma melhor oferta financeira inicial, mas por um pacote global que oferece retorno mais completo ao investidor.
Fonte: ge.globo.



