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Atlético-MG: o primeiro clube a navegar entre LFU e Libra

O Atlético-MG anunciou recentemente a decisão de retornar à LFU (Liga Forte União), marcando um movimento único no cenário de negociações de direitos de transmissão do futebol brasileiro: o clube será o primeiro a manter simultaneamente participação em ambos os blocos — Libra e LFU. Enquanto seus direitos de transmissão do Brasileirão entre 2025 e 2029 já estão vendidos à Globo através da Libra, 10% de seus direitos futuros foram cedidos aos investidores da LFU em um acordo de 50 anos (2025 a 2075) no valor de R$ 108,5 milhões. A estratégia revela uma sofisticação crescente nas negociações comerciais do futebol profissional, com desdobramentos que podem influenciar decisões de outros grandes clubes.

 

Entendendo Libra e LFU

Para compreender o movimento do Atlético-MG, é necessário diferenciar as duas estruturas que disputam espaço nas negociações de direitos comerciais do futebol brasileiro. A Libra funciona como uma associação de clubes, sem intermediários ou investidores externos. Seus integrantes — geralmente presidentes ou seus indicados — reúnem-se para deliberar sobre assuntos coletivos, particularmente a venda de direitos de transmissão internacionais, negociações com casas de apostas e acordos relacionados a games. A estrutura opera com base em consenso entre as instituições participantes, preservando autonomia decisória dos clubes.

A LFU, por outro lado, adotou estratégia distinta. Constituiu uma empresa chamada Sports Media Entertainment para comercializar parcelas de direitos futuros dos clubes junto a um grupo de investidores. Esse consórcio é formado por LCP Partners, XP Investimentos e Livemode. A diferença fundamental é que esses investidores externos “compraram um lugar à mesa”, participando das decisões estratégicas comerciais ao lado dos clubes. Essa dinâmica é denominada “condomínio”, refletindo uma relação em que terceiros tem poder decisório proporcional ao capital investido.

 

O modelo híbrido do Atlético-MG

O Atlético-MG não se filia completamente a nenhum bloco, mas combina elementos de ambos. Essa abordagem é resultado de circunstâncias específicas de negociação. Os direitos de transmissão do Brasileirão de 2025 a 2029 já foram comercializados para a Globo através da Libra, criando uma obrigação contratual que persiste independentemente de mudanças futuras na filiação do clube. Simultaneamente, o Atlético-MG cedeu 10% de seus direitos futuros aos investidores da LFU, em um negócio de 50 anos (2025 a 2075) avaliado em R$ 108,5 milhões.

A permanência do Atlético-MG na Libra tem implicações práticas concretas. Se a diretoria atleticana decidisse se desfiliar formalmente, cessaria a participação de representantes — tipicamente o CEO Bruno Muzzi — nas assembleias do bloco. Porém, os direitos já comercializados à Globo permaneceriam vinculados à Libra e seus termos contratuais. A distribuição dos recursos continua regida pelo estatuto da Libra, pois foi assim que o contrato foi estruturado, independentemente de o clube manter ou encerrar sua filiação formal.

Essa configuração revela uma realidade comercial: contratos firmados criam obrigações duradouras que transcendem mudanças organizacionais. O Atlético-MG, portanto, consegue acessar capital da LFU enquanto mantém direitos comerciais sob proteção da Libra, uma posição que oferece flexibilidade financeira sem sacrificar segurança contratual.

 

O papel do BTG e a dinâmica de intermediação

O anúncio do Atlético-MG gerou surpresa também em relação à posição do BTG (banco de investimentos) na negociação. O banco havia recebido mandato para levar um investidor à Libra e apresentou o fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos. Contudo, os clubes da Libra rejeitaram o fechamento de negócio com os investidores árabes, encerrando a função de intermediação do BTG naquele contexto.

Com o mandato concluído sem sucesso, o BTG não tinha função clara na Libra. Sua dinâmica mudou quando o Atlético-MG se movimentou em direção à LFU. Agora, o banco ganha remuneração conforme consegue intermediar acordos entre clubes e os investidores da LFU — LCP Partners, XP Investimentos e Livemode. Esse realinhamento de incentivos ilustra como intermediários financeiros adaptam suas estratégias conforme as negociações evoluem.

 

Perspectivas para o próximo ciclo de negociações

O movimento do Atlético-MG oferece indicações importantes para o próximo ciclo de vendas de direitos de transmissão, relativo ao período 2030 a 2034. A presença do Atlético-MG na LFU significa que seus 19 jogos como mandante no Brasileirão estarão disponíveis para comercialização pelo bloco. Isso reforça significativamente o portfólio da LFU para futuras negociações, tornando o bloco mais atrativo para compradores de direitos e para novos investidores.

A expectativa é que outros clubes façam movimento similar. Vitória, São Paulo e Santos surgem como candidatos potenciais — especialmente aqueles que enfrentam necessidade urgente de fluxo de caixa. A lógica é simples: clubes com dificuldades financeiras estruturais tendem a priorizar accesso rápido a capital, mesmo que isso implique ceder percentuais de direitos futuros.

Por trás das movimentações entre Libra e LFU existe um tema subjacente que frequentemente domina narrativas públicas — a rivalidade entre blocos, disputas políticas, rivalidades entre clubes como Flamengo. Essas narrativas servem fundamentalmente para consumo da opinião pública, criando dramaticidade e interesse. Na realidade operacional, o que determina decisões é simples: fluxo de caixa.

Cada movimento comercial do Atlético-MG e de outros clubes é motivado por necessidades financeiras concretas. A questão central não é lealdade a um bloco ou outro, mas garantir receitas que permitam operação profissional, contratações de qualidade e sustentabilidade financeira. O Atlético-MG, ao manter um pé em cada canoa, demonstra que flexibilidade pragmática — maximizar receitas independentemente de alinhamentos formais — é a estratégia dominante.

 

Fonte: Rodrigo Capelo, Sport Insider.

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