Os clubes brasileiros aprovaram a proposta da CBF de reduzir o número de jogadores estrangeiros por aqui. Até então, cada clube podia relacionar até nove estrangeiros por partida. Esse número agora vai cair gradualmente até chegar a cinco em 2030.
A justificativa da CBF é que os estrangeiros estão tomando o lugar dos brasileiros e atrapalhando a revelação de novos jogadores. Que temos um problema de formação de jogadores, as últimas seis Copas do Mundo estão aí para provar. Mas daí a achar que menos gringos vão consertar nossas categorias de base vai uma distância enorme.
Se o jogador brasileiro precisa de proteção para jogar no próprio país, o problema não é o estrangeiro. Mas sim a formação que damos a ele, já que as categorias de base treinam em campos ruins, deixam a escola de lado, ignoram a saúde mental, mal preparam a subida ao profissional e vendem os meninos muito antes de ficarem prontos.
Afastar a concorrência dos estrangeiros não resolve isso. Muito pelo contrário: a reserva de mercado vai premiar jogadores que não fizeram por merecer. E quem agradece são os empresários locais, que seguirão tratando os meninos como mercadoria, agora com mais vitrine para expô-los.
A história da economia brasileira tem bons exemplos do que acontece. Menos competição resulta em menos cobrança por resultado e, no fim, produtos de péssima qualidade. Os carros Gurgel, os telefones da Telebrás e os computadores Cobra que o digam.
O pior é que a medida atropela os planos da própria CBF. Muito se fala em um Brasileirão mais atraente para torcedores e investidores do mundo inteiro. Acabamos de aprovar regras contra a cera para melhorar o espetáculo, e até mudanças nos horários dos jogos para acompanhar o fuso de outros países.
Mas não. Agora decidimos piorar o campeonato em nome da promessa incerta de formar jogadores melhores. O que só nos distancia do futebol jogado na Europa e, para completar, arrisca o domínio que acabamos de conquistar na América do Sul.
Veja bem: justo quando o fim da farra das bets deve apertar o caixa, os clubes brasileiros perderão o acesso a bons jogadores sul-americanos a preço baixo. São os casos de Arrascaeta, Gustavo Gómez, Piquerez, Germán Cano e Jhon Arias, que chegaram sem grande alarde e se tornaram protagonistas. Ou, no futebol pernambucano, exemplos como Acosta, Ortigoza, Mena, Lucas Mugni e Fabricio Domínguez. É isso mesmo que queremos?
Os torcedores se deram conta disso e a rejeição foi quase unânime. Inclusive, lembra o que aconteceu quando o ministro Haddad tentou taxar as compras em sites estrangeiros, a chamada “taxa das blusinhas”. A reação foi tão forte que o governo recuou, e não duvido que a CBF faça o mesmo.
O país se modernizou e cansou desse tipo de proteção. Isso vale para a economia e, pelo visto, também para o futebol.
Rodrigo de Abreu Pinto
Advogado, filósofo e professor. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Formado em Direito das Sociedades Anônimas de Futebol (SAF) pela CBF Academy. Presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD). Presidente da Comissão de Inovação e Mercado de Capitais da Associação Brasileira de Advogados de Direito Imobiliário (ABAMI). Presidente da Comissão de Estudos da Sociedade Anônima de Futebol da OAB-PE. Vice-Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Portugal de Pernambuco. Membro do Conselho Curador da Fundação Gilberto Freyre. Membro da Comissão de Direito Societário e Mercado de Capitais do Instituto Brasileiro de Direito Empresarial (IBRADEMP). Membro da Comissão de Inovação e Tecnologia do Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário (IBRADIM). Membro da Comissão de Direito Empresarial do Instituto dos Advogados de Pernambuco (IAP-PE). Membro da Comissão de Mercado Financeiro e de Capitais da Ordem dos Advogados de Pernambuco (OAB-PE).



