Tudo começou com jovens que estudavam na Inglaterra e voltavam com uma bola para os seus países, como os brasileiros Charles Miller e Guilherme de Aquino. Depois, jogadores cruzando fronteiras, torcedores acompanhando ligas de países que nunca visitaram e por aí vai.
O capítulo mais recente dessa internacionalização alcança a propriedade dos clubes. Primeiro, foram aquisições pontuais em grandes ligas, como o Chelsea por Abramovich (2003) e o PSG pelo fundo Colony Capital (2006). A prática ganharia escala a partir das redes multiclubes, em que clubes de diferentes países ficam sob o mesmo controle.
O Mapa das Redes Multiclubes do Futebol, preparado pelo Observatório Social do Futebol (UFRJ), identificou nada menos que 101 redes e 330 clubes reunidos nelas.
O Brasil entrou de vez nesse mapa com a Lei da SAF (2021), que abriu caminho para a transformação dos clubes em empresas, com a entrada de investidores em seu capital.
O Bahia é parte do Grupo City, ao lado de Manchester City, Girona, Palermo e mais oito clubes espalhados pelo mundo. O Red Bull Bragantino divide o portfólio com os congêneres de Leipzig, Nova York e Salzburgo. O Barra-SC pertence à mesma rede do Hoffenheim e do Acadêmico de Viseu. O Brusque-SC integra grupo ao lado do português AVS. E o Coritiba vendeu uma fatia minoritária para o grupo do Independiente del Valle.
Quem entra em uma rede passa a compartilhar estrutura, conhecimento e sistemas de prospecção de atletas a que dificilmente teria acesso. Aí está a sua força. Mas tudo depende do lugar que o clube ocupa na rede.
O principal risco é o clube virar mero satélite do principal clube da rede. O Bahia se protegeu disso ao incluir, na venda para o Grupo City, obrigações de investimento por parte do controlador, com piso de folha salarial e de contratações.
Outro risco é a alavancagem financeira, ainda mais quando participações em clubes da rede são dadas em garantia para financiar a aquisição de novos clubes. Foi o que aconteceu no Botafogo: as ações de John Textor foram executadas por credores e o controle do alvinegro foi parar nas mãos de desconhecidos.
Aprendidas as lições, é hora de olhar para as oportunidades. Dos maiores grupos do mundo, apenas City e Red Bull já desembarcaram por aqui. Há espaço de sobra para atrair outros grupos de peso, desde que sejam superados alguns obstáculos.
Em conversas com investidores estrangeiros, ouço sempre as mesmas reclamações:
(i) a tributação muda da noite para o dia, como já ocorreu com o regime tributário previsto na própria Lei da SAF;
(ii) o Judiciário decide sob a pressão da torcida, a despeito dos fatos e do direito;
(iii) a sociedade naturaliza episódios de pressão e violência das torcidas organizadas; e
(iv) em vez de uma liga unificada, o futebol brasileiro segue dividido em dois blocos rivais (Libra e LFU).
Estão dadas as condições para construir o mercado de futebol mais pujante do mundo.
Rodrigo de Abreu Pinto
Advogado, filósofo e professor. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Formado em Direito das Sociedades Anônimas de Futebol (SAF) pela CBF Academy. Presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD). Presidente da Comissão de Inovação e Mercado de Capitais da Associação Brasileira de Advogados de Direito Imobiliário (ABAMI). Presidente da Comissão de Estudos da Sociedade Anônima de Futebol da OAB-PE. Vice-Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Portugal de Pernambuco. Membro do Conselho Curador da Fundação Gilberto Freyre. Membro da Comissão de Direito Societário e Mercado de Capitais do Instituto Brasileiro de Direito Empresarial (IBRADEMP). Membro da Comissão de Inovação e Tecnologia do Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário (IBRADIM). Membro da Comissão de Direito Empresarial do Instituto dos Advogados de Pernambuco (IAP-PE). Membro da Comissão de Mercado Financeiro e de Capitais da Ordem dos Advogados de Pernambuco (OAB-PE).



