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A SAF do Sávio: por dentro do negócio da Desportiva Ferroviária

Tem um detalhe que passa batido quando se fala do investimento de Sávio na Desportiva Ferroviária: ele não é um empresário qualquer comprando um clube qualquer. É um ídolo do Flamengo voltando para o clube que o revelou, em uma cidade do interior do Espírito Santo, para colocar dinheiro num time que já teve estádio ameaçado de leilão. É a história perfeita para vender um projeto de SAF, e também um bom estudo de caso de tudo que dá certo e tudo que quase dá errado nesse tipo de negócio. Afinal, boa história e uma xícara de chá é papo para inglês ver quase o tempo todo.

 

Tradição, base e um histórico financeiro pesado

A Desportiva Ferroviária Vale do Rio Doce é um dos clubes mais tradicionais do Espírito Santo, sediada em Cariacica, na Grande Vitória. Foi lá que Sávio nasceu para o futebol: descoberto nas categorias de base do clube, seguiu para o Flamengo em 1988, aos 14 anos.

O histórico financeiro da Desportiva é o oposto de um ativo limpo. Em 1999, o clube virou clube-empresa (Desportiva Capixaba S/A), numa parceria com o grupo Villa-Forte & Oliveira: o clube ficaria com 49% das ações e o grupo pagaria por 51%. O acordo não foi cumprido, a empresa quebrou, a Justiça decretou a dissolução do negócio e a Ferroviária, como associação, retomou o controle em 2011. Só que voltou carregando as dívidas deixadas pela Villa-Forte, incluindo passivos de postos de gasolina e de uma escola particular que nada tinham a ver com futebol. Nesse período, o Estádio Engenheiro Alencar Araripe, patrimônio do clube, chegou a correr risco real de ir a leilão por causa de uma dívida então estimada em R$ 80 milhões.

Some-se a isso um pedido de indenização que a própria Desportiva move contra a CBF, de R$ 131,5 milhões, por não ter disputado a Série C de 2004, e passivos trabalhistas mais recentes na casa de R$ 1,2 milhão, negociados aos poucos com a Justiça do Trabalho. Ou seja: quem compra a SAF da Desportiva não está comprando um balanço limpo, está comprando marca, história e ativo imobiliário com um preço de entrada consideravelmente mais baixo do que teria em um clube sem esse passivo.

Ou seja, sabe aquele projeto que nasce para o processo A e alguém tem a péssima ideia de fazer a política B? Desvio de foco total do propósito, é como criar um banco e uma ONG juntos, não tem como funcionar.

 

O ativo físico: estádio próprio, mas pequeno

O Estádio Engenheiro Alencar Araripe, em Jardim América (Cariacica), é propriedade do clube, inaugurado em 1966. A capacidade reportada varia bastante entre fontes, de cerca de 7.700 a 8.000 lugares nas estimativas mais conservadoras, chegando a números históricos de até 13.500 em outras contagens. O clube já sinalizou publicamente a intenção de triplicar a capacidade atual para o Capixabão, o que dá a régua exata do tamanho do investimento em infraestrutura que ainda falta. Para jogos de maior apelo (Copa do Brasil, clássicos, competições com a CBF), a Desportiva historicamente usa o Estádio Kleber Andrade, esse sim de propriedade do Governo do Estado, com 21 mil lugares, reformado e reinaugurado em 2014. Não há, nos registros públicos, um centro de treinamento avaliado ou monetizado separadamente, o ativo relevante hoje é o estádio próprio.

 

O negócio: R$ 116 milhões por 90%, em 10 anos

Em março de 2024, a Associação Desportiva Ferroviária assinou proposta vinculante com a Tiva Investimentos S.A., holding fundada em dezembro de 2023, com sede no Rio de Janeiro (CNPJ 53.169.871/0001-08). O valor: R$ 116 milhões por 90% de participação na SAF, aportados ao longo de 10 anos. Isso implica um valuation implícito de aproximadamente R$ 129 milhões para 100% do clube, considerando o desconto típico de controle. É um número pequeno perto das SAFs de Série A, mas gigante para o padrão do futebol capixaba, onde nenhum outro clube do estado tem operação comparável.

Sávio entra como um dos investidores do grupo controlador, ao lado do sócio Gabriel Venturim, que assumiu como uma espécie de CEO do processo de implantação da SAF.

 

A novela dos bastidores: quando o negócio quase mudou de mãos

Entre a assinatura da proposta vinculante (2024) e a aprovação final em assembleia (25 de julho de 2026), o processo passou por um momento de real instabilidade que qualquer análise de risco precisa registrar. Em 18 de novembro de 2025, a própria Desportiva publicou nota oficial informando que a Tiva Investimentos daria lugar à Vitória Cup, uma empresa organizadora de torneios amistosos internacionais (que havia trazido Santos com Neymar, Cruzeiro e clubes argentinos ao estado em julho daquele ano), como nova responsável pela condução da SAF.

O problema: nem a Tiva, nem a própria Vitória Cup confirmaram a mudança. Procurado pela imprensa capixaba, Gabriel Venturim, sócio da Tiva, respondeu apenas “não iremos comunicar nada por enquanto”, uma resposta clássica de quem está no meio de uma negociação de saída, mas não quer assumir publicamente. A Vitória Cup, por sua vez, confirmou interesse em assumir o processo, mas sem contrato assinado. O episódio gerou o que a imprensa local descreveu como “mal-estar nos bastidores”, e por semanas não ficou claro quem, de fato, controlaria a futura SAF da Desportiva.

O desfecho veio oito meses depois: na assembleia de julho de 2026, foi a proposta original da Tiva Investimentos, com Sávio entre os investidores, que foi votada e aprovada, por 29 votos a 1. A Vitória Cup não aparece mais como parte do negócio nos registros mais recentes. Para quem acompanha M&A no futebol, esse é um lembrete valioso: em negócios de SAF fora do eixo Rio-São Paulo, a governança do processo de aquisição costuma ser tão instável quanto as finanças do clube-alvo, e o investidor que assina proposta vinculante em 2024 não tem garantia nenhuma de que vai fechar o negócio em 2024, pode levar dois anos e sobreviver a uma tentativa de substituição pelo caminho.

 

A tese de investimento

Do ponto de vista de retorno, a lógica por trás da SAF da Desportiva segue o padrão que já descrevemos para Sávio, Ronaldo e Roberto Carlos: comprar controle de um clube pequeno, com ativo imobiliário próprio (o estádio), marca regional forte e histórico esportivo relevante, por um cheque que representa uma fração do que custaria uma fatia minoritária de um clube de elite. O aporte de R$ 116 milhões em 10 anos financia especificamente reformas de estádio (a meta de triplicar a capacidade), formação de elenco competitivo e, presumivelmente, a régua de resolver parte do passivo trabalhista herdado.

O caminho de valorização passa por dois eventos binários: acesso à Série D e, na sequência, a divisões nacionais mais altas, e a monetização de um estádio maior via naming rights e bilheteria recorrente, seguindo o modelo que já vimos no Feira Futebol Clube com a Superbet Arena. Em 2026, o clube já garantiu vaga na Copa do Brasil (com cota de R$ 100 mil só pela participação) e disputa o Capixabão e a Copa Espírito Santo, um calendário que dá visibilidade e receita de bilheteria recorrente enquanto o projeto de infraestrutura avança.

 

A oportunidade que poucos olham

Você deve conhecer facilmente 10 clubes grandes dentro do Sudeste, não é verdade? Diga o primeiro nome de um time que vem na sua mente, a chance de ele ser no Sudeste é quase 99% a não ser que você está lendo esse texto no sul do Brasil.

Agora o que tem uma chance de ser 100% de certeza é que esse clube não fica no Espírito Santo, exatamente, você não leu errado, não existe futebol no Espírito Santo, é como se o estado nem fizesse parte do mapa da bola no Brasil.

A oportunidade aqui é o famoso “buy and hold”, pois esse clube pode pela primeira vez mudar o olhar do futebol brasileiro para esse estado e criar um efeito cascata em outros clubes.

 

O risco

O maior risco desse tipo de negócio não é esportivo, é de governança e passivo herdado. A dívida trabalhista, o histórico de litígio com a CBF e a instabilidade que quase trocou o controlador do projeto no meio do processo mostram que, mesmo em um negócio de menor porte como esse, o comprador precisa de um jurídico forte para blindar a SAF do passivo da associação antiga, algo que a própria estrutura legal da Lei 14.193/21 permite fazer, mas que só funciona se for bem executado no contrato de constituição.

Minha leitura: é exatamente esse tipo de ativo, pequeno, com problema, mas com marca e ídolo local, que hoje oferece a melhor relação risco-retorno no mercado de SAF brasileiro. Quem tem estômago para lidar com passivo trabalhista e novela de bastidores por dois anos, como fez a Tiva, sai do outro lado com 90% de um clube por um preço que não compraria nem 5% de um Corinthians.

Felipe Araujo

Diretor de Estratégia M&A e FP&A no Futebol. Especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva.

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